Sandra Guinle - cenas infantis

Patrícia Menezes

Ana Rondon

 
Anita Malfatti estudou em Paris e Nova Iorque, conviveu ao longo de sua juventude cosmopolita com os artistas mais badalados e ¨ilustres¨ do seu tempo. Aos 45 anos, parecendo cansada de todas as construções teóricas e de suas contradições, Anita viajou por Minas Gerais e encantou-se com a simplicidade dos costumes, das pessoas e até com a cumplicidade daquelas paisagens de interior, que parecem desenhos de crianças.

Uma outra pintora paulista, Djanira, após uma vida de privações e sofrimento, procura-se a si mesma na arte aparentemente simples e naïf que produz. E, também já amadurecida, recusa-se a seguir quaisquer cânones ¨...Nunca voltei atrás, nem fiz concessões...dias e noites trabalhando sozinha, consultando minha consciência. Vi que só tinha um caminho a seguir: partir de mim mesma..."

Isto nos faz lembrar de outro artista, o russo Marc Chagall, que depois de um profundo aprendizado em seu país e na França, parte em busca dos temas folclóricos, longe de contextos racionais, explorando sonhos e lembranças, também à procura de uma infância perdida.

Estes três artistas conviveram com as guerras mundiais, em momentos terríveis para a humanidade - e suas obras, em alguma fase, procuraram respirar numa atmosfera longe da realidade escura e sangrenta.

Sandra Guinle morou no interior de São Paulo, nasceu e teve sua infância marcada pelo ambiente de paz e carinho. Mas o mundo ficou tão cruel, ou pior, que no tempo dos três artistas citados. Sumiram os brinquedos simples e feitos em casa, freqüentemente imaginados e executados pelas próprias crianças. As festas infantis são regadas a Coca-Cola e infernizadas com música techno. Os pais, atormentados por problemas de trabalho e financeiros, parecem não ter mais alegria para dar. E as crianças, vagam pelas escolas - quando elas existem - com olhares de adultos preocupados.

E reinando sozinho, silencioso e implacável, sua excelência o Computador. Agora, aquelas crianças que o possuem, consomem na sua frente os tempos que antes se destinavam às brincadeiras. Poucas alternativas lúdicas foram procuradas para humanizar os computadores. As crianças estudam inglês, fazem ginástica, ocupam todos os minutos de sua infância e, robotizadas, competem, competem, competem. Este foi o mundo que Sandra Guinle encontrou quando ¨acordou¨ de suas recordações. E então decidiu regressar a esse local mágico que foi a sua infância e a infância de cada um de nós.

Foi há tão pouco tempo, parece que foi ontem, que se pulava amarelinha e se caía no riacho, indo ao quintal pegar uma maçã ou uma couve. Sandra não se conforma: é possível resistir, reverter essa ¨educação¨ à qual fomos levados por este mundo, no qual o dinheiro circula livremente à velocidade da luz, enquanto as pessoas são proibidas de, simplesmente, se deslocarem de país para país ?

Numa época em que se fazem instalações, se realizam performances, em que se embrulha o Central Park, Sandra permanece fiel à sedução clássica do barro e à robustez eterna do bronze. Tendo suas raízes visivelmente fincadas no Modernismo brasileiro, na tradição de Maria Martins, Portinari, Bruno Giorgi , Teruz e Cesquiatti, ela nos convida para uma volta às fontes emocionais, ao universo mágico, mas ainda talvez possível, de um retorno à racionalidade.

RAUL LUIS MENDES SILVA
Ensaista